Ser não é importante, uma vez que já somos. Todo esforço para realizar o Ser é inútil, perda de tempo e de energia. A água não precisa se esforçar para ser líquida, o vento não luta para se movimentar, a Natureza ensina que tudo já é aquilo que é. Por que, então, vivemos em busca daquilo que já somos?
Ser não é necessário; necessário é estar. O verbo é outro.
Estar é difícil. Ancorar-se na realidade é o desafio. Olhar o mundo sem querer transformá-lo, sem exigir que ele corresponda aos nossos desejos, talvez seja a grande tarefa.
Estar aqui e agora implica aceitar a Vida, permitir que seu ritmo se estabeleça sem esforço, sem luta, olhar o mundo com os olhos de Deus e ser o amor que inunda a experiência.
Isso é estar.
Fernando Pessoa tornou célebre uma antiga máxima dos navegadores: “Navegar é preciso; viver não é preciso.” E talvez ela esconda uma verdade ainda maior.
Não é preciso viver. Já somos a própria Vida.
Não temos uma existência; somos a própria Existência. Não precisamos nos ocupar em ser aquilo que já somos. Precisamos nos ocupar em estar naquilo que somos.
Essa talvez seja a nossa grande dificuldade: somos, mas não estamos.
Estamos quase sempre em outro lugar. No passado que já desapareceu, no futuro que ainda não existe, nos desejos, nos medos, nas expectativas, nos enredos construídos pela mente. O Ser permanece onde sempre esteve, enquanto nós nos perdemos nas paisagens do pensamento.
Por isso, não precisamos encontrar o Ser.
Precisamos parar de abandoná-lo.
Quando a cortina de ilusões criada pelos nossos desejos se dissipar, não encontraremos um mundo novo. Encontraremos este mesmo mundo, finalmente livre das projeções que colocamos sobre ele.
E talvez seja isso enxergar o mundo com os olhos de Deus:
ver aquilo que é sem desejar que seja outra coisa.
Para estar aqui, será necessário desfazer as malas que estão sempre prontas, parar de viver numa estação esperando o próximo trem, deixar de embarcar em viagens constantes para lugares que só existem na mente.
Desejar é manter as malas prontas.
Aqui é tudo. Aqui está o mundo. Não importa onde estejamos, todo o Universo está conosco. Só precisamos permanecer e observar, permitindo que tudo aconteça de acordo com os princípios que conduzem a Vida.
É preciso estar aqui com os olhos de Deus, com o amor divino envolvendo toda a nossa experiência.
O resto é ilusão.
Reconheça o Ser como algo pronto, algo que não precisa ser melhorado — e nem poderia. Pense comigo: se Deus nos criou, somos perfeitos, uma vez que uma fonte perfeita não poderia gerar algo imperfeito. Podemos também pensar de outra forma, longe do criacionismo, pensando o homem como emanação do próprio Deus. Da mesma forma, sendo emanação de algo perfeito, não poderíamos ser imperfeitos.
Como melhorar aquilo que já é perfeito? As imperfeições não pertencem ao Ser; pertencem ao não Ser, ao personagem efêmero que transita nesse mundo ilusório de sonhos e desejos criados pela mente. Esse personagem nunca está aqui; vive perdido, de forma pendular, entre o passado e o futuro — ora convivendo com o sentimento de ódio, ora com o medo.
O passado não existe, tampouco o futuro. Logo, esse personagem também não. Por que tentamos realizá-lo? Por que tentar salvar uma vida que precisamos perder?
Olhe para tudo que está aqui.
Transconhecimento
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