O Reino de Deus paira sob uma aura de mistério entre as religiões que procuram compreender a profundidade desse ensinamento. Para alcançarmos aquilo que Jesus indicava, talvez seja necessário fazer uma abstração de muito do que vem sendo ensinado pelas inúmeras doutrinas que exploraram esse tema.

Jesus não estava se referindo a um lugar de bem-aventurança, pacificado, onde todos viveriam eternamente em harmonia, mas a um estado de consciência livre das ilusões criadas pela mente. Não apontava para um lugar ao qual deveríamos chegar, mas para uma condição da qual nos afastamos.

Sofremos por viver na mais profunda ignorância, enxergando o mundo através de um véu de ilusões e incapazes de percebê-lo em suas cores verdadeiras. Vivemos presos em enredos mentais, arrastados por desejos, fugindo dos nossos medos, anestesiando o nosso ser com distrações, prazeres e inúmeros mecanismos de fuga. O resultado é que construímos uma psicosfera ilusória e, presos nessa instância, perdemos contato com o Real.

O Real é o Reino de Deus, nada mais do que isso.

Viver na Realidade é ser realizado. É estar em estado de Graça, pois essa Graça faz parte da nossa condição natural. Não precisamos fabricá-la ou conquistá-la. Precisamos apenas remover aquilo que impede sua manifestação.

O Estado de Graça é nosso estado original, mas, infelizmente, vivemos com os olhos voltados para o mundo, olhando pela janela e sonhando. Esse comportamento responde por grande parte da nossa desconexão com o Reino e, consequentemente, com a Realidade.

É muito difícil convencer alguém de que ele só precisa ser.

Ser o que já é.

Fomos expulsos desse paraíso no momento em que nos identificamos com o mundo e fomos hipnotizados pela paisagem. Hoje vivemos numa realidade reduzida a conceitos, nomes e formas. Estamos aprisionados no universo semiótico da mente, tão envolvidos com seus símbolos que esquecemos aquilo que realmente somos. Simplesmente perdemos contato com a própria essência.

A realidade de um anel de ouro é o próprio ouro. Se retirarmos o nome e a forma do anel, o que sobra? Aquilo que constitui sua própria substância: o ouro. O anel pode ser derretido, transformado em pulseira, moeda ou qualquer outra forma. As formas aparecem e desaparecem; o ouro permanece.

O mesmo ocorre conosco. Estamos aprisionados no mundo das formas e esquecemos nossa própria substância.

Se retirarmos de nós o nome e a forma, o que sobra?

Por conta dessa identificação profunda com a mente, já não sabemos quem somos. Sentimos apenas os efeitos e as implicações das construções mentais que passaram a reger nosso caminho. O sofrimento surge, então, como instrumento de despertar, como uma força que nos empurra de volta para aquilo que esquecemos.

Essa desconexão pode ser comparada a uma onda tola que se ergue na superfície com galhardia, orgulhosa de sua forma, sem perceber que é efêmera e que toda a grandeza do oceano a que pertence já constitui sua própria natureza.

A onda olha para o oceano e pensa estar diante de algo exterior a ela.

Não percebe o óbvio:

ela é o oceano.

A onda não precisa encontrar o oceano. Não precisa evoluir para tornar-se oceano. Não precisa ser aceita por ele nem desenvolver qualidades que lhe permitam um dia pertencer a ele.

Ela apenas precisa descobrir aquilo que sempre foi.

O despertar passa justamente pela compreensão da nossa própria natureza e pela desidentificação daquilo que não somos. O falso eu precisa morrer. Essa vida fictícia não deve ser salva. Tudo aquilo que em nós nasce da ignorância, do medo e da separação pode nos atravessar, mas não constitui nossa natureza essencial.

O medo não é você. O ressentimento não é você. O ódio não é você. Seus desejos não são você. Sua história não é você. Nem mesmo as vozes que falam incessantemente dentro da sua cabeça são você.

São movimentos da onda.

Você é aquilo que permanece quando esses movimentos cessam.

Pertencer a este mundo com o grau de identificação que criamos talvez seja justamente estar nas “trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes”. Talvez o inferno nunca tenha sido um lugar. Talvez seja o estado de consciência daquele que perdeu contato com o Real e passou a tomar as sombras projetadas na parede da caverna como a única realidade possível.

Existe, sim, um propósito para tudo isso. Acredito que aquilo que está dentro, em essência, a seu tempo quebrará a casca desse ovo e descobrirá um mundo infinitamente maior. Não porque tenha se transformado em outra coisa, mas porque finalmente conseguiu enxergar aquilo que sempre esteve ali.

Não evoluímos para nos tornar aquilo que ainda não somos.

Despertamos para aquilo que sempre fomos.

No estágio em que estamos, criamos os monstros e depois somos compelidos a enfrentá-los. Criamos as prisões e depois procuramos as chaves. Construímos o personagem e passamos a existência tentando salvá-lo. Tudo isso faz parte do caminho de volta ao Reino — um Reino que lembra a casa do Pai para a qual o filho pródigo decide retornar.

É claro que nossas crenças e valores foram reforçados por inúmeras ações externas, mas não adianta procurar culpados. É preciso apenas mudar a direção da busca. Parar de procurar fora e fazer a grande inflexão, partindo do princípio de que não somos o personagem envolvido nessas tramas mentais.

Está na hora de fazer esse caminho de volta.

Aquilo que somos em essência é eterno, incontaminável e perfeito. Somos parte do Universo; Cristo está em nós. Deus, Pai, Brahman, Allah, Tao — use o nome que quiser. Os nomes pertencem à mente. Aquilo para o qual tentam apontar está além deles.

Não existe algo para transcender no sentido de nos transformarmos em outra coisa. Não evoluímos para fabricar uma natureza superior. A essência não precisa ser aperfeiçoada.

É preciso apenas ser.

O grande problema do ser humano é achar que ele é o lixo que carrega. Acumulamos medos, ressentimentos, culpas, crenças, traumas, desejos, frustrações e memórias e, depois de algum tempo, olhamos para esse monturo e dizemos:

“Isso sou eu.”

Não.

Você carrega o lixo e depois acredita que é o lixo.

Siddhartha colocou dukkha — o sofrimento, a insatisfatoriedade da existência condicionada — no centro da Primeira Nobre Verdade. Talvez possamos enxergar nisso algo ainda mais profundo: sofremos porque nos identificamos com aquilo que é impermanente e procuramos estabilidade justamente onde ela não existe.

Tentamos salvar a onda e esquecemos o oceano.

Precisamos ser aquilo que já somos.

Voltar à casa do Pai é isso: retornar à própria Realidade, sair desse inferno de ilusões que encontrou tanta aderência em nossa mente. Esse é, para mim, o sentido profundo da parábola do filho pródigo: o retorno daquele que estava morto e voltou a viver.

Como na história, conhecemos o mundo, gastamos nossos recursos, experimentamos seus prazeres, perseguimos desejos e nos deixamos seduzir pelas formas. Até que um dia acordamos entre os porcos, famintos, exaustos e completamente esquecidos de nossa origem.

E há um detalhe extraordinário nessa parábola.

Antes de decidir voltar à casa do Pai, o filho pródigo cai em si.

Talvez toda a nossa jornada espiritual possa ser resumida nessas três palavras:

Cair em si.

Ele não encontra uma nova doutrina. Não recebe um novo conjunto de crenças. Não aprende um ritual secreto. Não conquista uma natureza superior.

Ele simplesmente se lembra.

E volta.

Mas talvez exista ainda uma compreensão mais profunda. Talvez nunca tenhamos realmente saído da casa do Pai. Talvez o afastamento tenha acontecido apenas na consciência. Permanecemos dentro da Realidade enquanto sonhávamos estar separados dela, como a onda que procura desesperadamente pelo oceano enquanto é carregada por ele.

Por isso, voltar à casa do Pai não significa viajar para algum lugar. Não existe distância a percorrer. Não existe um Reino escondido em alguma dimensão celestial esperando nossa chegada.

O Reino não ficou para trás.

Nós é que deixamos de percebê-lo.

E talvez seja necessário abandonar até mesmo a ideia de que “o Reino está dentro de você”, porque ainda existe nessa frase uma separação sutil: de um lado, você; do outro, alguma coisa chamada Reino localizada em seu interior.

Enquanto houver dois, ainda estaremos presos à velha armadilha.

O ouro não está dentro do anel.

O ouro é o anel.

O oceano não está dentro da onda.

A onda é o oceano.

Deus não está escondido em algum compartimento secreto dentro de você, esperando ser encontrado.

Talvez o último véu caia justamente quando essa separação desaparecer.

Você não precisa encontrar o Reino.

Não precisa conquistá-lo.

Não precisa merecê-lo.

Não precisa chegar até ele.

Você é o Reino.