Você consegue viver sem desejar nada?
Claro que não. Como poderia? Se ainda não conhece a natureza das coisas e vive em um mundo muito mais imaginário do que real. Com os olhos fixos, encantado com as bolhas de sabão desse mundo transitório e impermanente, sua dificuldade será gigantesca. Você continuará desejando tudo, pois desconhece a própria essência. Não acessou a plenitude que existe no âmago do teu ser — porque, se assim fosse, todos os desejos desapareceriam.
Enquanto espera o Godot, continuará sentindo-se um vasilhame vazio, à espera de substâncias, clamando por qualquer coisa que o preencha. Busca fora aquilo que está dentro. Não sabe do infinito que existe em si mesmo.
Esse é o seu estágio. Infelizmente. Você está muito mais identificado com as sensações do que com os sentimentos. Precisa ser violentado por sensações grosseiras, precisa ser tocado, agredido, porque desconhece a sutileza da Vida. É como se estivesse tentando convencer-se de que está vivo — por isso busca tapas e beliscões. O prazer que você busca resulta de dor.
Na verdade, esse é o retrato de todos nós. Os desejos nos angustiam, nos deixam ansiosos, apreensivos, preocupados e sempre nos trazem sofrimento. No entanto, seguimos atendendo às suas proposições, como verdadeiros escravos. Como explicou Kant: a verdadeira liberdade é conseguir fazer aquilo que não queremos fazer. Fazer apenas o que desejamos é o retrato óbvio da escravidão aos próprios impulsos. Viver sem desejar nada é a própria libertação.
Mas você consegue viver assim?
É evidente que não. Você acredita que a felicidade resulta de conquistas externas. Ainda não compreende algo fundamental: a libertação ocorre mediante a abstração. Você precisa livrar-se do apego, dos sonhos, das metas — enfim, de tudo que esteja te ancorando nesse mundo ilusório.
Parece radical? É mesmo. Parece uma provocação? Talvez seja. Aqueles que dormem precisam de tapas para despertar. Não se ofenda — você não está sozinho.
Para vencer o mundo, é preciso desinteressar-se por ele. Perder a identificação com esse personagem. Deixar de lutar e soltar-se na imensidão da Vida, com aceitação, com amor e gratidão, com toda a fé necessária para andar sobre as águas da existência.
Os desejos apenas cumprem uma função psicológica. Funcionam como mecanismos de fuga para os desconfortos da alma. Quando reelaborarmos esse material que nos machuca, um sentimento de satisfação irá nos envolver e, com isso, os desejos lentamente perderão sua função.
E então, talvez — apenas talvez — você consiga viver sem desejar nada.
Transconhecimento
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