Não importa o que você fez. Se estiver se sentindo culpado, arrependido ou angustiado, saiba que esses sentimentos não guardam uma relação necessária com o ato em si. Eles são produzidos por um sistema interno construído de fora para dentro: pela educação, pelas doutrinas religiosas, pelas tradições, pelos costumes e por tudo aquilo que, ao longo da vida, foi sendo incorporado como verdade. É esse sistema que transforma acontecimentos em sofrimento.
No ser humano, podemos distinguir um campo mental e um campo emocional. O campo mental opera continuamente, representando a experiência para a consciência de maneira essencialmente neutra. Sua função é descrever, organizar, comparar e interpretar os fatos; ele não cria, por si só, o sofrimento. A construção da experiência subjetiva acontece no campo emocional. São as emoções que conferem intensidade aos acontecimentos e lhes atribuem um peso existencial. Cada experiência é impregnada por uma tonalidade afetiva: algumas permanecem leves e neutras; outras são revestidas por emoções densas, sobretudo pelo medo.
O medo não surge de forma aleatória. Ele obedece ao sistema de crenças que carregamos. É como um guardião dos "estatutos da alma": sempre que uma ação, um pensamento ou um desejo parece transgredir aquilo que aprendemos ser certo ou errado, ele se manifesta imediatamente. O fato, que antes era apenas um acontecimento, passa a ser envolvido por uma atmosfera de ameaça.
Quando o medo se instala, surge uma reação contra aquilo que aconteceu. Essa reação frequentemente assume a forma de raiva. Temos raiva do que fizemos, do que sentimos ou até do que pensamos. Se essa raiva é alimentada continuamente, transforma-se em ódio dirigido contra nós mesmos (culpa). O ódio, por sua vez, não desaparece; ele apenas é reprimido e arquivado nas profundezas da memória emocional. A experiência deixa de ser um evento do passado e passa a existir como uma presença constante, vibrando silenciosamente dentro de nós.
É por isso que muitas pessoas continuam sofrendo durante anos por acontecimentos que já não existem. O sofrimento não é sustentado pelo fato em si, mas pela carga emocional que permanece ligada a ele. A memória deixa de ser apenas uma lembrança e torna-se um campo de ressonância, que colore o presente com emoções antigas.
Isso não significa que nossas ações não tenham consequências nem que toda responsabilidade deva ser descartada. Significa apenas que a dor psicológica nasce menos do acontecimento do que da interpretação afetiva que fazemos dele. Enquanto o sistema interno continuar atribuindo ao passado um significado de condenação, a emoção continuará renovando esse sofrimento.
A verdadeira libertação começa quando percebemos que esse sistema não constitui nossa essência. Ele foi aprendido, condicionado e repetido durante anos. Aquilo que foi construído pode ser observado; e aquilo que pode ser observado já não ocupa o centro da consciência. Nesse instante, o medo começa a perder sua autoridade. O acontecimento permanece como parte da história, mas deixa de definir quem somos. O passado continua existindo como memória, porém deixa de existir como prisão. Esse é o verdadeiro significado do perdão. Perdoar nunca foi sobre esquecer, mas mudar o significado com o qual o evento foi construido.
Olhar para cada um desses conteúdos é um passo necessário. É justamente diante deles que Deus prepara a mesa de que fala o Salmo 23: "Preparas uma mesa perante mim, na presença dos meus inimigos." Esses inimigos não precisam ser compreendidos apenas como forças externas; muitas vezes, eles habitam o interior da nossa própria consciência. São as partes de nós que rejeitamos, os personagens que criamos a partir de atos, pensamentos ou desejos que aprendemos a condenar.
Enquanto permanecem excluídos, continuam exercendo influência sobre nós. Mas, quando são acolhidos, perdem gradualmente a força que possuíam. O que alimenta esses conteúdos não é o erro em si, mas a resistência que oferecemos a eles. Tudo aquilo que é rejeitado busca permanecer vivo; tudo aquilo que é verdadeiramente compreendido começa a se dissolver.
Esse acolhimento não significa justificar ou glorificar aquilo que fizemos. Significa apenas cessar a guerra interior. Ele acontece por meio do amor, da compreensão, do perdão, da aceitação e da compaixão. Essas não são virtudes adquiridas, mas expressões daquilo que somos em nossa natureza mais profunda. Quanto mais nos aproximamos desse centro, menos necessidade temos de combater a nós mesmos.
É nesse movimento que a culpa perde seu domínio, o medo deixa de governar e o passado deixa de aprisionar o presente. A mesa preparada por Deus é, em última análise, o lugar da reconciliação: o espaço onde até mesmo aquilo que chamávamos de inimigo pode finalmente ser visto, compreendido e integrado à totalidade do ser.
Transconhecimento
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