Um dia me perguntaram o que é a vida, e eu respondi que a linguagem humana é insuficiente para responder a essa pergunta.

A vida não pode ser conceituada ou confinada em uma definição, catalogada com algum significado para pertencer ao universo simbólico da mente humana. Tampouco pode ser apontada por algum instrumento rudimentar criado no estágio primitivo em que nos encontramos. A compreensão da vida ultrapassa o intelecto humano; é presunção querer explicar com palavras aquilo que está muito além do nosso conhecimento. A palavra vida não contém a Vida. A vida simplesmente É.

Você não possui uma vida — você é a própria Vida. Só ainda não percebeu isso. Pensa que foi uma dádiva recebê-la, mas a vida não é um objeto que se possa comprar, doar, conceder ou fabricar. Não é uma substância isolada; ela está na essência de tudo. Talvez um dos nossos maiores equívocos esteja escondido num simples pronome possessivo: dizemos "minha vida" como se houvesse alguém separado dela capaz de possuí-la. Ainda assim, sinto que é arriscado da minha parte afirmar qualquer coisa sobre a Vida; sinto-me como um sapo olhando para a lua.

O homem tenta transformar a vida em um objeto para submetê-la à sua análise; isso reflete o padrão cartesiano no qual nossa mente foi condicionada. É urgente superar essa visão limitada, abandonar a separação entre sujeito e objeto, pois esse dualismo está na raiz de grande parte da miséria que a humanidade experimenta. Quando me percebo separado da Vida, passo imediatamente a temer perdê-la. Surge o medo da morte, depois o apego, a necessidade de segurança, o desejo de permanência e a tentativa desesperada de proteger esse personagem que chamo de "eu".

Penso que, sem uma perspectiva integrativa, compreender essa questão torna-se quase impossível. Talvez a Vida não possa ser compreendida justamente porque não é algo que esteja diante de nós. É aquilo dentro do qual toda compreensão acontece. O intelecto tenta encontrá-la como objeto sem perceber que ele próprio acontece dentro dela.

A ignorância nos leva a abraçar a ideia de uma vida temporal, que um dia perderá seu combustível e desaparecerá como um elemento da matéria em decadência. Essa mesma falta de compreensão nos faz viver de forma desesperada, como um paraquedista em queda livre sem paraquedas, tentando agarrar-se ao ar. Passamos a existência aterrorizados com o impacto, procurando desesperadamente alguma coisa onde possamos nos apoiar.

Mas compreender a Vida talvez seja justamente perceber que não existe chão.

O desconhecimento da nossa condição eterna gera medos que se multiplicam e sofrimentos constantes — e bem sabemos que a ignorância é a mãe de todos os medos. Vivemos nos agarrando a tudo que possa dar relevância à nossa existência: preocupados em deixar uma marca, ansiosos por conquistas, buscando segurança, acumulando coisas, tentando aproveitar ao máximo esse pequeno intervalo temporal. Queremos desesperadamente deixar alguma coisa porque acreditamos que iremos embora. Na falta de entendimento, acreditamos no fim da Vida que pulsa em nós.

Construímos um mundo ilusório, com um personagem vivendo uma saga de lutas e dificuldades. Criamos uma identidade, damos um nome a ela, construímos uma história. Acumulamos títulos, posses, lembranças, afetos, ressentimentos e sonhos. E depois passamos a vida inteira tentando impedir que esse personagem desapareça.

Esquecemos o mais óbvio: não temos uma existência — somos a própria existência. Não temos uma vida — somos a própria Vida.

Tentar definir o que é a Vida, o que é o amor ou o que é Deus é típico da nossa condição ainda infantil. O homem precisa desaprender muito daquilo que acumulou e deixar de fortalecer indefinidamente o intelecto com sistemas e mais sistemas de crenças. Talvez essas coisas não possam ser conhecidas da maneira convencional justamente porque não pertencem ao universo dos objetos que podem ser colocados diante de nós, dissecados, classificados e definidos.

A ciência pode explicar os mecanismos da vida, mas mecanismo algum explica a Vida. Pode investigar a célula, o metabolismo, a reprodução, a genética, o nascimento e a morte dos organismos; pode penetrar cada vez mais profundamente na estrutura da matéria. Mas aquilo de que estou falando não será encontrado no escrutínio da matéria nem através de embates dialéticos, porque a Vida não é mais um elemento dentro do filme.

Ela é a tela onde o filme acontece.

Talvez esteja justamente aí o nosso grande engano. Passamos toda a existência preocupados com o personagem, completamente absorvidos por suas aventuras, suas perdas, suas paixões, suas conquistas e seus medos. Choramos com ele, sofremos com ele, tememos sua morte porque acreditamos que somos ele. Ficamos tão hipnotizados pelo filme que esquecemos a tela.

Entender a Vida é superar a morte, o apego, os sonhos, os desejos e, finalmente, a raiz de todo sofrimento humano. Não porque o personagem deixará de morrer, mas porque talvez um dia compreendamos que nunca fomos apenas esse personagem.

O personagem nasce, envelhece e morre; o filme começa e termina.

A tela permanece.