Quando você perceber que não se importa mais com avaliações, aprovações, julgamentos ou críticas, vai perceber também que já não está no mesmo degrau e, com isso, experimentará uma profunda sensação de paz e liberdade.
Você notará um sentimento de amplitude que deixará sua alma mais leve e constatará que todo o poder que antes era transferido para fora, para o mundo ou para o outro, agora pertence a você. Isso significa que conseguiu sentar-se no próprio trono e não precisa mais orientar-se por informações externas, especialmente aquelas provenientes das velhas vozes em sua cabeça. Agora você está no comando. Não há mais regras, padrões, normas ou modelos externos capazes de conduzi-lo; você faz suas escolhas porque conseguiu sair da cabeça e chegar ao coração.
E então acontece algo aparentemente contraditório: você finalmente assume o comando quando deixa de querer controlar. Se conseguir chegar a esse estado, perceberá que não precisa mais controlar nada, pois começa a compreender a dinâmica das relações humanas e perde o interesse em lutar contra o curso das coisas. A expansão da consciência lhe permite perceber que você não é apenas uma pessoa isolada, mas uma expressão do Todo. E então compreende que é esse mesmo Todo que está no controle — e sabe exatamente o que está fazendo.
Talvez se lembre do tempo em que viveu acuado, com medo de tudo e de todos, escondendo-se das pessoas, procurando sempre os cantos, acorrentado pela própria insegurança. Nesse momento, uma sensação indescritível será percebida em seu coração e você começará a compreender qual é a sua verdadeira natureza.
Tudo isso mostrará quem você de fato é, e aquele personagem que vivia uma saga de lutas, em busca de conquistas, sonhando com realizações e tentando desesperadamente encontrar um lugar no mundo começará a perder sua força. Você entenderá que ele era apenas um falso eu, uma estrutura que sequestrava sua atenção e o impedia de enxergar-se.
O ego é uma construção mental que ganha sustentação através da carga emocional utilizada em sua engenharia. Nas paredes dessa construção está o passado, ainda vivo, constrangendo-nos permanentemente. E, para fugir desse constrangimento, corremos para uma instância ainda mais ilusória: o futuro, através dos desejos.
Vivemos oscilando entre aquilo que aconteceu e aquilo que gostaríamos que acontecesse.
O ego precisa desse tempo psicológico para sobreviver. Alimenta-se das memórias do passado e das projeções do futuro. O presente é perigoso para ele, porque nele não há história para sustentar o personagem. Existe apenas aquilo que É.
O ego não é nada. Procure o ego e você perceberá que ele nunca existiu como entidade independente. Onde ele está? Qual sua forma? Onde começa e onde termina? Retire suas memórias, seus medos, desejos, identificações, crenças, nome e história pessoal. O que resta daquele personagem que você passou a vida inteira tentando defender?
Toda essa realidade pode ser um sonho, mas como convencer aqueles que continuam presos na caverna de que o mundo verdadeiro não é aquele projetado nas paredes?
Jim Carrey foi ridicularizado em alguns momentos quando passou a falar publicamente sobre a natureza ilusória da identidade e sobre “Jim Carrey” como uma construção. Sempre a mesma história: aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não conseguiam ouvir a música.
Na verdade, talvez ele tenha apenas percebido que não é a voz presente em sua cabeça, mas aquele que a ouve. Percebeu que nunca foi apenas o ator participando do espetáculo, mas também o espectador. Notou que seu verdadeiro eu não estava no palco, mas na poltrona. Deixou de se confundir com o objeto quando descobriu o sujeito.
Esse tipo de despertar de consciência não é raro; difícil é permanecer nele. A Graça surgirá para todos, e cada um a encontrará a seu tempo. Ninguém será privado desse encontro com a Realidade.
Jesus compara, nas Escrituras, o Reino dos Céus a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra e, tomado de alegria, vende tudo o que possui para comprar aquele campo. Há algo extraordinário nessa pequena parábola: depois de encontrar o tesouro, aquele homem já não consegue atribuir às antigas posses o mesmo valor. Ele viu alguma coisa. Agora sabe que existe um tesouro.
Talvez aconteça algo semelhante nesses momentos de expansão da consciência. Quem já passou por isso sabe que esse estado pode não durar. Surge como um clarão, uma fresta aberta por alguns instantes, talvez para revelar ao homem não aquilo que precisa conquistar, mas aquilo que sempre esteve ali, escondido por trás das estruturas que encobrem sua verdadeira natureza.
Depois a mente retorna, o personagem reaparece, as antigas vozes voltam a falar e novamente somos chamados ao palco. Mas alguma coisa mudou: agora sabemos que existe uma poltrona.
E talvez seja justamente essa lembrança que permaneça. Não como mais um objetivo a ser perseguido, pois isso apenas recriaria o personagem, o desejo e o futuro, mas como uma verdade que um dia foi experimentada e já não pode ser completamente esquecida.
O homem da parábola não criou o tesouro. Não precisou fabricá-lo, aperfeiçoá-lo ou tornar-se digno dele.
O tesouro já estava lá.
Transconhecimento
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