Evolução é apenas mais uma palavra entre tantas que só fazem sentido para quem ainda não despertou, para quem permanece identificado com a mente. É ela quem cria a ilusão do tempo linear e precisa sustentá-la para nos manter cativos, presos à ideia de que temos que evoluir. Para isso, você precisa do futuro, de uma meta, de um objetivo. Enquanto acreditarmos nisso, sempre haverá uma estrada a percorrer, um estado de graça a alcançar, um céu, um Shangri-lá ou uma iluminação a perseguir.
Essa crença fortalece a sensação de falta, de fraqueza, de impotência e de incapacidade — conceitos incompatíveis com a nossa Verdadeira Natureza. Ao aceitá-la, transformamo-nos em buscadores. E essa é apenas mais uma das armadilhas da mente.
Buscar o quê? Aquilo que você já é?
Correr atrás de um estado de felicidade é como um cachorro perseguindo o próprio rabo. Quando compreenderá que a felicidade não é um prêmio reservado ao final da caminhada, mas o seu estado natural?
Enquanto acreditar que precisa evoluir, você continuará identificado com a figura do herói: aquele que luta, enfrenta desafios, supera provas e espera, um dia, ser aceito no Olimpo. Mas existe uma forma de libertar-se de tudo isso: simplesmente seja aquilo que você já é.
Tudo é muito mais simples do que parece. Depende apenas da compreensão — e a compreensão não é um ato de vontade. Ou, mais precisamente, depende do quanto você consegue desapegar-se da imagem que faz de si mesmo. Enquanto houver alguém buscando a realização, ela não acontecerá, porque o buscador precisa desaparecer.
Lembra-se da frase da oração de São Francisco: “É morrendo que se vive para a vida eterna”? Ela encerra uma verdade mais profunda do que a maioria imagina. Não é você quem entra na eternidade. É o transitório que desaparece, revelando aquilo que sempre foi eterno. A vida eterna, proposta por Jesus, é isso: você.
Morrer para a vida... parece um paradoxo, mas não há outro caminho. A vida à qual você se agarra é apenas uma ideia construída pela ignorância de si mesmo. Na verdade, nem sequer é uma vida. É um sistema de crenças no qual conceitos foram sendo incorporados à sua estrutura psicológica até moldarem um personagem mortal, pecador, frágil e permanentemente carente de proteção.
Enquanto persistir a identificação com esse personagem, a ideia de evolução continuará se impondo. Mas, quando seus olhos se abrirem para o real, tudo isso se dissolverá como a escuridão diante do sol.
Até que essa compreensão aconteça, você viverá sob a influência de mercadores de ilusões, em um gigantesco mercado onde soluções mágicas, ferramentas poderosas, rituais infalíveis e uma infinidade de receitas são oferecidos para mantê-lo preso à busca da iluminação. Sem perceber, continuará lutando como um herói em uma saga interminável. Você tenta salvar uma vida que precisa ser perdida. Tenta realizar um personagem que precisa morrer. Tudo isso é apego, e o apego é o grande vilão. As portas da prisão estão abertas, mas você não quer sair; tem medo da liberdade, sente-se seguro e protegido nos limites dessa cela imaginária.
O seu coração permanecerá preso àquilo a que atribui valor. Porém, ao retirar esse valor, um sentimento de libertação começará a surgir. O apego se dissolve pelo desapego; o interesse, pelo desinteresse; a identificação, pela desidentificação. Não há outro caminho. Não existem atalhos. É somente por meio dessas inflexões que o real pode se manifestar.
Quem tentar convencê-lo do contrário estará apenas mantendo-o na mesma ignorância em que ele próprio se encontra, como o cego conduzindo outro cego: ambos acabarão no abismo.
Não há o que evoluir, simplesmente porque nada pode aperfeiçoar aquilo que já é perfeito, divino e realizado. Não se trata de evolução, mas de entendimento; não de conquistar algo novo, mas de reconhecer aquilo que sempre esteve presente: o seu estado natural. Você jamais deixou de ser quem verdadeiramente é. Apenas permaneceu incapaz de perceber essa realidade enquanto esteve aprisionado nos enredos da mente, alimentados pela ignorância de si mesmo.
O estado natural do ser é como um diamante. Não importa se está exposto em uma joalheria, já lapidado, ou se ainda permanece oculto no leito da terra: sua natureza sempre é a mesma. Todo o processo ao qual chamamos de evolução jamais alterou aquilo que sempre existiu em essência.
O mundo não tem o poder de transformar aquilo que você já é; ele é capaz apenas de entorpecê-lo e fazê-lo esquecer quem é. O tempo não existe para aquilo que é eterno, consciente, imutável e incontaminável. O tempo pertence apenas ao que nasce e morre. O que é o tempo? Nada. É preciso conhecer aquilo que não morre, que nada reivindica como seu e que já é, desde sempre, tudo o que poderia ser.
Muitos dirão que negar a evolução é um absurdo. Seria como remover um dos principais alicerces daquilo que convencionamos chamar de realidade. Toda a construção desabaria; não restaria pedra sobre pedra. A evolução é a primeira peça de um gigantesco dominó. O que seria do mundo sem ela? Para muitos, seria o próprio apocalipse.
A mente, porém, resiste. Sempre oferecerá essa tábua de salvação àqueles que se afogam na ignorância. Alimenta-se da nossa insegurança e da necessidade de acreditar que ainda falta alguma coisa. Por isso, vivemos como a ave acomodada dentro do ovo: convencida de que aquele pequeno mundo é tudo o que existe, teme romper a casca, sem perceber que ela não a protege — apenas a aprisiona. Só quando o ovo se rompe é que a vida realmente começa.
Só aqueles que conseguiram sair da caverna e enxergar as cores do mundo são capazes de entender que as sombras são incapazes de representar a realidade.
Transconhecimento
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