O Diabo desafia Jesus a se jogar do pináculo, citando as Escrituras: "Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te sustentarão nas suas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra." (Lucas 4:9-11).
O pináculo do templo era um lugar altíssimo, e qualquer um que caísse dali certamente morreria. O Diabo, ao propor esse desafio, buscava instigar, de alguma forma, a vaidade de Jesus. Queria compelir o Filho de Deus a demonstrar Seu poder de forma espetacular, desafiando as leis da Natureza e, assim, provar Sua divindade de maneira presunçosa.
Jesus, porém, responde com firmeza: "Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mateus 4:7).
o Diabo pede um privilégio. Jesus escolhe a Lei.
Essa passagem é profundamente interessante e rica em significado. Para compreendê-la melhor, é essencial refletir sobre o conceito de Deus. Se imaginarmos Deus como uma figura sentada em um trono celestial, observando Suas criaturas e intervindo pessoalmente em cada acontecimento, corremos o risco de cair em incoerências em nossa análise, pois essa visão pode se tornar tudo, menos racional.
No entanto, se pensarmos em Deus, como propôs Spinoza, por exemplo, como a própria Natureza (Sive Natura), estaremos diante não de uma entidade pessoal, mas de um sistema perfeito, regido por princípios imutáveis. Essa perspectiva encontra respaldo em várias passagens dos Evangelhos e em outras tradições filosóficas e espirituais.
Afinal, se alguém pular do vigésimo andar de um prédio, cairá e morrerá — seja branco, preto, rico, pobre, judeu, muçulmano, hétero, gay, e assim por diante. Isso vale até mesmo para um santo, como Buda, Krishna ou o próprio Cristo.
Deus governa o Universo por meio desses princípios imutáveis e não os alteraria para socorrer um de Seus filhos. Não são as leis da Natureza que precisam ser modificadas para que encontremos a felicidade, mas nós é que precisamos nos ajustar de forma harmoniosa a esses princípios que regem a existência.
Esse episódio da vida de Jesus nos deixa diante de ensinamentos profundos. Deus, de fato, não cria distinção entre Suas criaturas. Tanto é verdade que o próprio Nazareno, falando do Pai (a Natureza), disse: "Porque ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos" (Mateus 5:45).
Esse pensamento nos aproxima muito da visão oriental de Brahman, o Absoluto, aquilo que é Um, não dois. Ou seja, tudo é Deus. Se tudo é Deus, dEle somos parte. Sendo Deus a própria Natureza, somos essa Natureza também.
Partindo desse princípio, fica mais fácil aceitar a onisciência de Deus. Se Ele está presente em nós, como está presente em tudo, sabe exatamente tudo o que se passa conosco e pode nos ajudar da melhor forma, mas ajuda através dos próprios princípios por ele criados, pois são princípios que se alinham ao nosso despertar, por mais que ainda não tenhamos alcance disso. A Natureza não age nos entregando aquilo que desejamos, mas aplicando aquilo que precisamos para o nosso bem maior.
Conclusão: Deus não resolve problemas individuais, pois o Universo não é governado por decisões arbitrárias, mas por Leis eternas e imutáveis. Não adianta tentar barganhar com Deus; precisamos nos alinhar à dinâmica universal. É essencial compreender que colheremos aquilo que plantarmos, que estamos sujeitos a regras que se aplicam a todos igualmente e que somente por meio de uma compreensão ampla e sistêmica desses princípios encontraremos o caminho para a verdadeira realização.
Transconhecimento
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