Não reagimos — nunca — à realidade em si. Reagimos à nossa história.

É ela quem empresta cores, tons e contornos a tudo o que presenciamos. Toda reação é atravessada por um programa mental, um filtro elaborado ao longo dos anos a partir das experiências que vivemos. Assim, cada um enxerga o mundo de forma distinta: uma flor amarela na campina pode despertar alegria em uma pessoa e tristeza em outra. A flor, obviamente, é a mesma; mas cada um a processa segundo a própria biografia afetiva.

Diante disso, torna-se inevitável um movimento de volta para dentro. É preciso fazer um inventário emocional, investigar a origem dos problemas que criamos. Ao fazê-lo, perceberemos que aquilo que estamos problematizando, no fundo, não passa de um conteúdo psíquico — carregado de emoções não integradas — que entrou em ressonância com a imagem ou experiência presente. Algo que ficou mal resolvido, que deixou impressões na alma, que foi guardado em alguma gaveta do inconsciente e agora é acionado sem que percebamos o quanto ainda somos governados por esse material.

Não há possibilidade real de avançarmos em nosso processo de libertação sem travarmos esse bom combate — sem enfrentarmos o que está enraizado em nosso passado. Os hindus chamam esses conteúdos de samskaras, mostrando que já conheciam o inconsciente e os processos psíquicos muito antes da psicanálise e das abordagens modernas da psicologia. Não se trata, porém, de um conhecimento meramente teórico; trata-se de um convite à escavação interior.

Se está claro que somos nós quem criamos, ou ao menos alimentamos, o problema, por que reclamamos da vida, desanimamos, nos revoltamos? Por que nos colocamos na condição de vítima?

Seria como brigar com o espelho pela imagem que ele reflete. O espelho não mente; ele apenas devolve o que está diante dele. A questão não é destruir o espelho, mas reconhecer que a imagem não é o espelho — e que a fonte do desconforto não está na superfície refletora, mas em quem olha.

Precisamos fazer uma inflexão. Olhar para dentro. Buscar a fonte de todas as nossas dificuldades, pois a resposta não pode ser encontrada do lado de fora. O Reino de Deus não está "ali", "lá" ou "acolá" — o Reino de Deus está dentro de vós. Quando Jesus disse isso, não ofereceu uma doutrina, mas um método: o retorno à própria interioridade como lugar da verdade.

Esperar que alguma autoridade religiosa, algum guru, mestre ou qualquer instância externa traga a solução definitiva não é recomendável. O dedo pode até apontar para a lua, mas devemos olhar para a lua — e não ficar presos ao dedo. O auxílio legítimo, quando vem, não nos torna dependentes; ele nos devolve a nós mesmos.

Qualquer um que queira realmente ajudar deve propor apenas isso: que você volte os olhos para si mesmo; que investigue o que ficou mal resolvido; que perdoe o que precisa ser perdoado; que ressignifique o que precisa ser ressignificado; que consiga desapegar-se do que passou, não por negação, mas por compreensão — olhando sob uma nova luz, com amor, aceitação e entendimento.

Perdoar — por mais que existam teses contrárias — não é esquecer, nunca foi; perdoar é tirar importância, até que a lembrança do ocorrido não nos afete mais.

Só assim deixaremos de alimentar os monstros internos e começaremos, enfim, a libertar a alma.