Vivemos em um desconforto constante, alimentado por preocupações, medos e outras emoções negativas, sem nos darmos conta de que tudo isso não é a causa do sofrimento, mas seu efeito. A causa está na perspectiva que adotamos para lidar com esse material.
Sofremos por não conseguirmos acolher a própria sombra e, ao evitá-la, acabamos criando ainda mais sofrimento.
Corremos o tempo todo, quase sempre assustados e desconfortáveis conosco. Isso é extremamente desgastante: esgota nossas energias e reforça a convicção de incapacidade e fraqueza diante de quem somos.
A solução nunca foi fugir.
É um grande equívoco lutar contra a própria sombra; é como tentar limpar um pântano — uma tarefa impossível. Não se trata de limpar, eliminar, muito menos escapar.
O caminho é olhar, reconhecer, aceitar e compreender que tudo aquilo que você nega, na verdade, é você mesmo. São conteúdos do seu próprio ser que aguardam um gesto de aceitação e reconhecimento.
Quando você se reconhece em sua totalidade, a consciência se ajusta e dissolve as energias negativas presas a eventos do passado; é simples assim. Trata-se apenas de uma água represada que precisa voltar a circular, mas insistimos em criar diques e comportas.
Água parada gera doenças; por isso adoecemos. Não encontro explicação mais clara para o sofrimento humano.
Quando entramos em luta contra nós mesmos, é ainda pior, pois nos tornamos nosso maior problema. Lutar apenas amplia a questão. É como perpetuar algo que poderia se dissolver com um simples reconhecimento.
Não percebemos que, da mesma forma que lidamos conosco, acabamos lidando com o mundo ao nosso redor.
Pessoas machucadas machucam; pessoas feridas ferem; pessoas amadas amam; pessoas resolvidas resolvem. Enfim, não há como viver bem com os outros se não vivermos bem conosco.
Não existe nada de errado conosco; não há demônio interno contra o qual precisemos lutar, nem um lado negro do nosso ser do qual tenhamos de fugir ou que devamos negar. Existe apenas o que somos.
A consciência é uma luz, mas precisa ser direcionada para iluminar onde as trevas imperam. É como na referência bíblica da lamparina que, em vez de ser colocada no velador, é posta debaixo da cama: como ela iluminará a casa?
Transconhecimento
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