A visão mitológica e antropomórfica de Deus diz muito sobre o nosso estágio de consciência, talvez ainda primitivo em muitos aspectos. Considero que o ser humano já evoluiu além desse ponto há muito tempo. Não precisamos mais nos proteger em torno de fogueiras, nem estamos submetidos às mesmas limitações de conhecimento das sociedades antigas. Não somos tão ignorantes quanto já fomos, mas ainda nos rendemos a doutrinas religiosas que reforçam nossos medos e reafirmam nossa dependência, muitas vezes apenas para nos manter em seus rebanhos.
Transformar os fenômenos naturais em entidades, além de primitivo, não contribui para o necessário entendimento dos fenômenos que envolvem a condição humana. Deus não está envolvido nos problemas pessoais de ninguém, da mesma forma que não se irrita, não se ofende nem possui caprichos humanos, pois, dessa forma, não seria Deus.
Não tenho a presunção de defini-Lo, pois Deus é insondável. Nada sabemos sobre Sua natureza última. Podemos, entretanto, observar aquilo que se manifesta na Natureza e investigar os princípios que parecem sustentá-la. Podemos reconhecer uma Inteligência na ordem da existência, embora a natureza dessa Inteligência permaneça desconhecida e, para avançarmos nesse território, seja necessária a fé.
Essa Inteligência manifesta-se através de um conjunto de leis e princípios. Cabe a nós compreendê-los e aprender a nos ajustar à Natureza. Não precisamos imaginar uma entidade intervindo constantemente nos acontecimentos, distribuindo recompensas e castigos de acordo com nossas ações. As próprias leis carregam suas consequências.
Esse tipo de concepção antropomórfica pode ser compreensível para o homem primitivo, mas torna-se cada vez mais difícil sustentá-la diante do nível de conhecimento alcançado pela humanidade. Não faz sentido hoje nos ajoelharmos diante de um trovão, acreditando tratar-se de um Deus furioso, ou fazermos sacrifícios diante de um vulcão em erupção imaginando que ele precise ser acalmado.
Deus não é o trovão, o mar, o vento, a terra ou a água. Deus não é uma entidade dentro do Sistema. Deus é o próprio Sistema: a Inteligência, a ordem, os princípios e as leis através dos quais a existência se manifesta. Tudo é Deus porque nada existe fora desse Sistema. Deus não está separado da Natureza administrando-a de algum lugar; manifesta-se através da própria ordem que sustenta a existência.
Conforme grandes iluminados revelaram ao mundo, incluindo Jesus, Buda, Krishna e tantos outros, Deus é o único objetivo a ser alcançado. À medida que expandimos nossa consciência, saindo de uma percepção meramente mecanicista para uma compreensão sistêmica da realidade, torna-se cada vez mais claro que precisamos nos ajustar a esses princípios através de uma profunda rendição e aceitação.
Quando transgredimos essas leis, quando resistimos às proposições dessa Inteligência Universal, surge o sofrimento. Não porque Deus tenha se irritado conosco ou decidido nos castigar. Deus não castiga; a própria ordem da existência já faz isso, sempre que nos desajustamos. Se contrariamos um princípio natural, experimentamos os efeitos dessa desarmonia e passamos a viver em um mundo de choro e ranger de dentes.
As religiões institucionalizadas que ainda preservam concepções antropomórficas de Deus permanecem, muitas vezes, ancoradas no passado, apresentando deuses com características humanas, sem se preocuparem em dissolver esse manto ilusório para revelar verdades inconvenientes. Continuamos ouvindo sobre um Deus que se irrita, pune, recompensa, escolhe favoritos, atende pedidos, interfere em acontecimentos e se comporta como uma personalidade humana infinitamente poderosa. Talvez por não conhecerem outra possibilidade, continuam criando personagens com as nossas próprias características.
A ignorância é um dos grandes problemas da humanidade, pois está na raiz de boa parte da ruína em que vivemos. O homem ignorante, governado por medos e incertezas, torna-se receptivo a argumentos sedutores capazes de guiá-lo, mesmo quando esses conceitos o conduzem para a escuridão, contanto que ofereçam alguma vantagem ilusória no mundo em que está inserido.
Um dos princípios da Natureza, em minha compreensão, é a evolução da consciência. Se nos recusamos a evoluir, se nos agarramos aos nossos conceitos e não permitimos que nossa compreensão se transforme, entramos em conflito com esse movimento. Quando escolhemos permanecer rigidamente presos ao passado, recusando qualquer mudança de consciência e comportamento, afastamo-nos da própria dinâmica da vida e, consequentemente, experimentamos os efeitos dessa resistência.
Amor e caridade também se apresentam como princípios fundamentais da Natureza. Se escolhemos o ódio e a indiferença, sofremos as implicações de nossas próprias escolhas. Tudo funciona melhor, ajusta-se e encontra equilíbrio quando existe amor; sua ausência produz separação, sofrimento, guerras e conflitos.
Amar, portanto, não é apenas uma virtude, mas uma necessidade.
Não porque exista um Deus observando nosso comportamento e anotando nossas faltas, mas porque o amor parece pertencer à própria ordem que sustenta a vida. Quando nos afastamos dele, experimentamos as consequências dessa desarmonia; quando nos aproximamos, alguma coisa começa a encontrar novamente seu lugar.
Existem muitos outros princípios e seria necessário um espaço muito maior, talvez um livro inteiro, para abordá-los. O importante é perceber que nossa relação com Deus talvez precise deixar de ser uma relação de medo, barganha e submissão diante de uma entidade antropomórfica para tornar-se uma compreensão cada vez mais profunda da própria Realidade.
O caminho de volta para a Casa do Pai não precisa ser uma viagem para algum lugar distante.
É o caminho de integração total com a Natureza.
Transconhecimento
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