Há uma conhecida frase, frequentemente atribuída a Mario Quintana, que diz que não devemos correr atrás das borboletas, mas cuidar do nosso jardim para que elas venham até nós. A metáfora contém uma verdade profunda: não se trata de deixar de desejar as borboletas, mas de compreender que talvez seja inútil persegui-las enquanto negligenciamos justamente aquilo que poderia atraí-las.

Queremos amor, carinho, reconhecimento, boas relações, prosperidade e tantas outras coisas que tornam a experiência humana mais rica. Não há nada de errado nisso. A questão é outra: será que estamos realmente cuidando do nosso jardim para receber aquilo que desejamos encontrar? Ou continuamos correndo atrás das borboletas, buscando atenção e afeto, enquanto transferimos para os outros a responsabilidade por aquilo que também depende de nós?

Cuidar do jardim significa cuidar de si mesmo, resolver conflitos internos, tratar feridas, compreender emoções e retirar aquilo que impede nossa própria luz de se manifestar. Quanto mais equilibrados e resolvidos estamos interiormente, mais essa condição se revela na maneira como nos relacionamos com o mundo. Nossa presença muda, nossas escolhas mudam e as pessoas também passam a nos perceber de outra maneira.

Podemos chamar isso de elevação de nossa frequência vibracional, desde que compreendamos que não se trata de fabricar artificialmente uma imagem positiva, mas de transformar verdadeiramente nosso estado interior. Não conseguimos esconder por muito tempo aquilo que somos. Nossas inseguranças, carências, ressentimentos e conflitos acabam aparecendo na maneira como falamos, reagimos, escolhemos e nos relacionamos. Da mesma forma, a paz, a segurança e a plenitude também possuem uma linguagem própria e são percebidas por aqueles que se aproximam de nós.

É nesse sentido que a conhecida frase atribuída a Emerson — “Quando fogem de mim, eu sou as asas” — torna-se provocadora. Muitas vezes procuramos desesperadamente aquilo que, pela própria condição em que nos encontramos, ajudamos a afastar. Queremos proximidade, mas oferecemos carência; desejamos amor, mas carregamos uma enorme dificuldade de amar a nós mesmos; buscamos relações saudáveis sem nos relacionarmos bem conosco mesmos.

Chegou o momento de cuidarmos verdadeiramente do nosso jardim. Não podemos continuar sendo inimigos de nós mesmos e esperar que o mundo compense essa guerra interior. Vivemos cercados por nossas emoções, culpas, frustrações, medos e conteúdos afetivos ainda não resolvidos. Muitas vezes procuramos no exterior abrigo para aquilo que evitamos enfrentar, buscamos pessoas para preencher vazios, distrações para silenciar angústias e alguma coisa que nos ofereça, ainda que temporariamente, aquilo que não conseguimos produzir dentro de nós.

Quando essas tentativas fracassam, facilmente nos colocamos na condição de vítimas. Reclamamos que ninguém nos compreende, que não recebemos amor suficiente, que as pessoas não reconhecem nosso valor ou que a vida não nos oferece aquilo que merecemos. Raramente fazemos a pergunta mais incômoda: que tipo de jardim estamos oferecendo às borboletas que desejamos atrair?

Isso não significa que alguém precise estar perfeitamente resolvido para ser amado, nem que pessoas fragilizadas não possam receber afeto e acolhimento. Significa apenas reconhecer que nosso estado interior participa ativamente da qualidade das relações que construímos. Se não conseguimos reconhecer nosso próprio valor, dificilmente estabeleceremos com o mundo uma relação que não esteja contaminada pela necessidade constante de confirmação.

Quanto mais nos depreciamos, mais essa condição aparece em nossas relações. Podemos tentar escondê-la através da aparência, do dinheiro, da posição social ou de qualquer outro recurso, mas aquilo que carregamos interiormente encontra maneiras de se manifestar. Há uma qualidade de presença que nenhuma maquiagem consegue produzir e nenhum adereço exterior consegue substituir.

Por isso, quando dizemos que o mundo muitas vezes nos trata da maneira como nos tratamos, não estamos estabelecendo uma lei absoluta, mas reconhecendo uma dinâmica bastante evidente: a relação que mantemos conosco participa da relação que estabelecemos com os outros. Quem se respeita tende a estabelecer limites diferentes; quem reconhece seu próprio valor não precisa implorar continuamente pelo reconhecimento alheio; quem encontrou alguma paz dentro de si já não se aproxima do outro exigindo que ele resolva todos os seus conflitos.

Talvez esse seja o verdadeiro significado de cuidar do jardim.

Não significa desistir das borboletas.

Não significa fingir que não desejamos amor, companhia, prosperidade ou reconhecimento.

Significa compreender que também precisamos criar dentro de nós as condições compatíveis com aquilo que desejamos encontrar fora.

Queremos pessoas interessantes? Precisamos também nos tornar interessantes. Queremos relações afetivas saudáveis? Precisamos observar aquilo que levamos para dentro delas. Queremos ser amados? Talvez devamos investigar nossa própria capacidade de amar. Queremos encontrar pessoas inteiras? Precisamos começar a cuidar daquilo que permanece fragmentado dentro de nós.

As grandes transformações começam quando deixamos de perguntar apenas o que o mundo pode nos oferecer e passamos a observar aquilo que estamos oferecendo ao mundo.

As borboletas representam tudo aquilo que gostaríamos de encontrar na vida. O equívoco não está em desejá-las, mas em persegui-las enquanto abandonamos o próprio jardim. Talvez seja muito mais sábio voltar para casa, cuidar da terra, retirar as ervas daninhas, tratar aquilo que está adoecido e permitir que nossas flores finalmente apareçam.

Então alguma coisa muda.

Já não precisamos correr desesperadamente atrás das borboletas.

Cuidamos do jardim para que elas tenham razões para chegar até nós.