O desaprendizado é o aprendizado mais poderoso e sofisticado que existe. Desaprender é fazer o caminho de volta, retornando à própria essência com uma consciência expandida, não apenas por aquilo que aprendemos — embora todo aprendizado tenha sido necessário —, mas principalmente por aquilo que vivemos.

Tudo aquilo que aprendemos possui sua utilidade para cumprir nossa missão na Terra. O conhecimento é indispensável para o desenvolvimento técnico, intelectual e humano, funciona como ferramenta de lapidação de um diamante bruto e nos fornece os recursos necessários para atuar no mundo. Entretanto, chega um momento em que aquilo que contribuiu para nosso desenvolvimento pode tornar-se um obstáculo ao despertar da consciência. O conhecimento nos trouxe até aqui, mas talvez não possa nos levar até o fim.

O acúmulo de informações na mente pode transformar-se em um problema para aqueles que buscam a iluminação, pois conhecimento e sabedoria são coisas diferentes. O conhecimento é adquirido, acumulado, transmitido; a sabedoria pertence a outra ordem. Podemos conhecer profundamente determinado assunto e ainda assim não ter compreendido aquilo que somente a experiência é capaz de revelar. Há coisas que sabemos porque aprendemos e outras que somente compreendemos depois de vivê-las.

Para atravessar essa porta estreita, teremos de nos livrar do excesso de bagagem que carregamos na mente, sobretudo da identificação com convicções construídas de maneira doutrinária, dogmática, tradicional e cultural. Desaprender não significa esquecer aquilo que sabemos nem retornar à ignorância. Significa retirar do conhecimento o poder de determinar os limites daquilo que somos capazes de perceber. O conhecimento é uma escada necessária, mas não podemos passar o restante da jornada carregando-a nas costas.

O conhecimento, portanto, não pode ser negligenciado. O problema está na linha tênue que separa a riqueza intelectual da identificação com aquilo que sabemos. É justamente aí que podem surgir a vaidade, o orgulho, a arrogância e a presunção de que o acúmulo de informações representa necessariamente uma consciência mais elevada. Saber muito não significa enxergar melhor. Em alguns casos, pode significar apenas possuir uma quantidade maior de conceitos através dos quais continuamos interpretando a realidade.

Grande parte daquilo que acumulamos na mente também é constituída por crenças. Acreditamos no que lemos nos livros, nas informações que recebemos, nos discursos que aceitamos, nas autoridades que legitimamos e até nas mentiras que, de tão repetidas, terminamos assimilando. Desde muito cedo recebemos um enorme acervo de informações que participa da construção do personagem com o qual atuamos no mundo. Depois de algum tempo, já não conseguimos distinguir com facilidade aquilo que realmente percebemos daquilo que simplesmente aprendemos a acreditar.

Esse acervo é necessário para nossa experiência, mas pode transformar-se numa camada tão espessa que passamos a enxergar tudo através dele. A mente compara aquilo que encontra com aquilo que já conhece, classifica o novo a partir do velho e procura encaixar a realidade dentro de suas estruturas. Quanto mais rígidas se tornam essas estruturas, menor o espaço para perceber aquilo que não cabe nelas.

Não é possível trazer luz à consciência sem remover parte dessas nuvens de informações que impedem seu acesso. O verdadeiro saber acaba encoberto e, por isso, desaprender talvez seja um dos últimos atos que teremos de empreender. Não para destruir o conhecimento, mas para colocá-lo em seu devido lugar. Ele é instrumento, não finalidade; serve ao homem enquanto o homem não se torna servo dele.

A sabedoria não nasce simplesmente do acúmulo de conhecimento. Ela se manifesta a partir de uma compreensão mais profunda da experiência, daquilo que foi vivido, assimilado e finalmente integrado. Existe em nós uma natureza capaz de perceber aquilo que a mente, ocupada com suas classificações e conflitos, muitas vezes não consegue enxergar. Talvez o verdadeiro saber não precise ser construído da maneira como imaginamos, mas apenas desobstruído.

Nossa Verdadeira Natureza não julga, não condena, não problematiza, não possui preconceitos nem cria conflitos inúteis, porque não depende das mesmas engrenagens que condicionam a mente. Há nela uma espécie de inteligência anterior às nossas construções, uma capacidade de reconhecer o óbvio que frequentemente desaparece sob a enorme quantidade de interpretações que acumulamos durante a vida.

Desaprender é retirar essas camadas. Não significa negar aquilo que vivemos, mas permitir que a experiência cumpra finalmente sua função. Fazemos o caminho de volta, mas não retornamos ao mesmo lugar. Aquele que retorna já conheceu o mundo, experimentou suas contradições, adquiriu conhecimento, cometeu erros, construiu certezas e viu muitas delas desmoronarem. Volta à essência trazendo consigo uma consciência que somente a própria jornada poderia produzir.

Talvez seja esse o paradoxo: precisamos aprender para, em algum momento, descobrir aquilo que precisa ser desaprendido. Precisamos construir para perceber aquilo que não fazia parte de nós e, finalmente, retirar o excesso. Como na lapidação de um diamante, nada é acrescentado à sua natureza para que ele se torne aquilo que já é; apenas se remove aquilo que impedia seu brilho de aparecer.

Nossa Verdadeira Natureza é Deus em nós. Sei o quanto essa afirmação é controversa, especialmente para aqueles que reconhecem como real apenas aquilo que pode ser alcançado pela razão. Mas talvez esteja justamente aí uma das últimas grades a serem removidas: acreditar que os limites do intelecto sejam também os limites da Realidade.

Desaprender, portanto, não é empobrecer a mente nem desprezar o conhecimento. É chegar ao ponto em que já não precisamos fazer dele uma prisão. O conhecimento cumpriu sua função, a experiência realizou seu trabalho e aquilo que sempre esteve encoberto pode finalmente manifestar-se.

Talvez o último aprendizado seja justamente este:

aprender a desaprender.