Quando as coisas estiverem difíceis para você, não resista. Aceite, suporte a dor, pois, diante de algumas circunstâncias, não há meios de vencê-la, apenas de atravessá-la. A dor assusta, mas pode se tornar uma grande aliada em nosso processo de despertar, pois revela nossas fragilidades, impulsiona mudanças e possui a matéria-prima necessária para a nossa transformação.

Ela provoca reflexões e nos obriga a olhar para dentro em busca de soluções e respostas. Não à toa, Jesus dizia: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.”

Todos querem estar no topo da montanha, onde ocupamos uma posição de destaque, onde a visão é ampla e a sensação de conquista é fonte de prazer. Mas não há como chegar lá sem passar pelos desconfortos da subida, sem conviver com a dor, com o cansaço e, algumas vezes, com o desânimo. Pode surgir até mesmo a vontade de desistir. Aqueles que desistem não entendem que aquilo que não foi superado continuará à sua espera. Só a persistência nos levará à conquista de nós mesmos, ao cume da montanha que a Vida nos designou.

Ninguém atravessa um período profundo de sofrimento permanecendo exatamente o mesmo. Basta olhar à nossa volta para perceber o quanto as pessoas se transformam depois de atravessar grandes infortúnios. Um novo olhar sobre o mundo pode surgir a cada fase difícil superada, uma nova forma de lidar com os acontecimentos começa a se estabelecer e nos tornamos mais resilientes, menos suscetíveis aos inconvenientes externos. Quanto mais mimados e menos testados formos pelas contrariedades da Vida, mais difícil será subir essa montanha.

Muitos passam por experiências duras que, algumas vezes, duram a vida inteira. Olhando de fora, parece injustiça divina, parece que todo o Universo conspira contra essas pessoas, mas isso não é verdade. É um equívoco olhar para fora em busca das respostas, pois a resposta está dentro. Tudo aquilo que acontece em nossas vidas, de uma forma ou de outra, atende às nossas demandas internas. São elas que revelam aquilo que precisamos viver em termos de experiência para o desenvolvimento da nossa consciência.

O homem ainda é guiado pelos sentidos, precisa do combustível das emoções para dar significado à sua existência e desconhece a própria luz. Vive preso em enredos mentais que sugam suas energias e o mantêm em permanente estado de torpor. É preciso dominar a mente, aprender a silenciá-la, para que a Consciência possa se manifestar e ele conheça o mundo Real. Esse estado de entorpecimento reclama ações mais duras do Universo. É como se estivéssemos sendo acordados aos tapas. Por isso, a dor acaba se tornando um instrumento necessário.

Sofremos porque acreditamos ser o personagem. A dor trabalha para destruir essa ilusão. Cada perda, cada frustração, cada fracasso retira um tijolo dessa construção imaginária. A Vida não está tentando destruir você; está tentando destruir aquilo que você não é. O despertar começa quando paramos de perguntar por que estamos sofrendo e começamos a perguntar o que em nós precisa morrer para que o Real possa aparecer.

Talvez seja justamente por isso que tentamos fugir tanto da dor. Não é apenas o sofrimento que nos assusta, mas aquilo que ele ameaça destruir. Nossas certezas, nossas identificações, nossos desejos, nossos projetos, a imagem que construímos de nós mesmos — tijolo por tijolo, a Vida vai atingindo essa estrutura até que alguma coisa comece a ruir. O personagem chama isso de tragédia. A Consciência talvez chame de despertar.

Não podemos nos livrar completamente da dor; ela faz parte do processo. Os hindus falam em prarabdha karma, isto é, aquela parcela do karma que amadurece na existência presente e precisa ser experimentada. Dentro dessa perspectiva, existem experiências que fazem parte do próprio caminho que teremos de atravessar.

Mas atravessar para chegar aonde?

Avançar para onde? Avançar para quê?

Avançar para o despertar.

Não existe outra palavra, porque aquilo que nos impede de reconhecer nossa condição plena deve-se justamente ao fato de estarmos dormindo. Não precisamos fabricar uma nova essência, construir um novo ser ou acrescentar alguma coisa àquilo que somos. Precisamos despertar da identificação com aquilo que não somos.

A dor não cria a nossa essência. Ela golpeia aquilo que a encobre.

Talvez seja essa a razão de tantas marteladas da Vida. Continuamos dormindo, vivendo uma vida de sonhos, presos entre desejos e medos, identificados com um personagem que julgamos ser nós mesmos, mergulhados num verdadeiro mundo de Alice.

Enquanto o sonho for agradável, ninguém desejará acordar.

Talvez seja por isso que, algumas vezes, a Vida precise transformar o sonho em pesadelo.